Feeds:
Posts
Comentários

teste

teste teste

Anúncios

Mudança de Endereço

Querido visitante. Mudei para o endereço www.domingosrodrigues.com

Assisti à palestra do James Hunter – autor do clássico “O Monge e o Executivo”. Noite interessante aquela, onde pude observar algumas coisas emblemáticas e avaliar a quantas anda o mundo em face ao cristianismo. Estava em uma confortável sala de um dos hotéis à beira-mar de Fortaleza, cercado por muitos executivos e empresários elegantemente vestidos, com o característico e discreto estilo corporativo. Pensei: O que querem? O que pensam? Por que estão em uma palestra sobre “liderança servidora”, aqueles que tradicionalmente são ícone de liderança autoritária? E mais, por que eu, um pastor, que deveria ser um ícone de liderança servidora, estaria ali, para aprender com o mundo corporativo, o que já deveria saber? Entre minhas divagações, Hunter foi anunciado. O auditório aplaudiu enfaticamente, seguindo a empolgação do mestre de cerimônias. Depois de uma breve introdução disse algo que atiçou minha curiosidade: 

Não escrevi nada novo. Na verdade eu roubei todos estes conceitos. Eles pertencem ao maior líder que já existiu: Jesus Cristo.

A platéia, hipnotizada, concordava sem talvez refletir muito sobre o que estava concordando, pois se Jesus é o maior de todos, então porque nem todos os que estavam ali são discípulos dele para o resto de sua mensagem?  Depois disse:

“Em todos estes anos (mais de 30) que tenho falado sobre estes princípios, alguém jamais se levantou dizendo discordar. Todos concordam com o que ensino porque todos concordam que a honestidade, a verdade, o caráter são princípios importantes para a vida.” 

A platéia novamente assentiu que sim com a cabeça. E assim Hunter passou o restante de sua palestra ensinando sobre a liderança servidora e a formação de comunidades no trabalho.

Seu ensino sobre os processos de interação humana tem sua relevância. A visão de humanizar o ambiente de trabalho através do respeito, civilidade, serviço, inspiração, e amor, é linda. É exatamente disto que precisamos. Mas enquanto falava, algumas percepções sobre a igreja, o cristianismo e o mundo dos negócios atravessaram meu coração. 

Há uma clara inversão de papéis entre os “Monges” e os “Executivos”. 

Não pude deixar de notar esta situação. Tradicionalmente sempre soubemos que de um lado estava a igreja (os monges) e do outro o mundo (os executivos). Mas a igreja moderna está mudando seu eixo e aproximando-se da cultura materialista. Muitas mantêm a base de seu discurso, na prosperidade, no ufanismo das vitórias e nos benefícios e vantagens que a fé – apregoada como bíblica – pode trazer. Por outro lado, o mundo (corporativo) está fundamentando seu discurso na nobreza de caráter, na grandeza, na liderança servidora e na humildade. Os grandes ícones da consultoria, tais como Stephen Covey, John Maxwell, James Hunter, dentre outros, defendem a significação existencial como a maior busca de cada profissional. Assim, os pólos se inverteram. Os papéis foram trocados. Isso aconteceu à medida em que a igreja deixou os ensinos práticos de Jesus, essenciais à vida e tornou o cristianismo em uma religião dogmática, fundamentalista, capaz de dominar politicamente o mundo, mas incapaz de transformar as pessoas pelo amor. Tal é o caso da colonização britânica tanto na Índia quanto na África do Sul. Nem de longe expressou o amor e a compaixão de Jesus. Foi uma colonização com volúpia poder político e econômico, resultando em uma conseqüente evangelização extrativista, dominadora e culturalmente opressora. Vemos suas marcas na sofrida luta de Nelson Mandela contra o Apart-Aid – herança do cristianismo etnocêntrico inglês – e, antes dele, vemos as chagas sociais do protestantismo imperialista, na luta de Ghandi, contra o mesmo poder Anglo-Saxão.

Em resumo, para compreender a impressão que boa parte do mundo tem acerca do cristianismo, dê um passeio pela história, desde as grandes navegações, passando pelas cruzadas até os ataques americanos ao Iraque. Você notará que a face do Evangelho de Cristo mostrada pela igreja recebeu tons completamente divergentes do Evangelho bíblico. O resultado? A quase completa rejeição da igreja no mundo pós moderno.  

Eis a situação: O mundo rejeitou a Igreja e está fazendo sua carreira-solo.

Todos sabemos que o mundo rejeitou a igreja desde o iluminismo. Mas ela ainda continuou parte essencial da sociedade. O Cristianismo continuou sendo o ideal de muitos. O sentimento religioso estava associado inseparavelmente à igreja. Vemos todavia uma cortina nova sendo aberta, revelando um novo cenário. As pessoas estão substituindo a comunidade da igreja pela comunidade corporativa, razão pela qual é cada vez mais comum que as empresas façam ação social e empreendam junto de seus funcionários, pelo bem comum. Isso é bonito. Ajudar é sempre nobre. Mas não fica só por aí. Por todos os lados vemos pessoas anelando aprofundar sua espiritualidade. Uma vez que rejeitou a igreja, busca na carreira profissional – a mais nova utopia – o significado de sua existência. Por isso expressões como “Capital Espiritual” e “Espiritualidade Corporativa” são crescentemente vez mais comuns. Não é à toa que o mundo corporativo fala sobre grandeza, caráter, visão, missão, valores, liderança inspiradora e autoridade – antes temas exclusivos da religião – Eis a face irretocável da cisão. 

A presente situação, revelada pelo mundo de Hunter é alarmante porque mostra um cristianismo sem Cristo, de ambos os lados. 

A expressão “O mundo de Hunter” Não se aplica à brilhante ficção do livro – antes fosse – mas ao mundo real que se redesenha em seu derredor: Nem a igreja consegue mais viver segundo a proposta revolucionária de Jesus e nem o mercado tem o objetivo de tornar-se cristão. Apenas deseja utilizar-se daquilo que lhe parece conveniente nos ensinos de Cristo, que são reinterpretados a partir da lógica das empresas de RH. Não há um Deus a quem seguir. Apenas princípios a praticar, com o pragmatismo monótono e linear da auto-ajuda. Assim ambos, monges e executivos, são dramaticamente parciais em sua mensagem.  No mundo de Hunter a empolgação pela carreira profissional, fácil e perigosamente preenche a sensação de missão existencial. Basta que a ela agreguemos o valor existencial. Então a consciência social permanece limpa e sentimos que realizamos nosso dever.

Tudo bem, admito. No ambiente de trabalho também há espiritualidade. Toda a existência é um culto a Deus. Mas não compulsoriamente. É culto no instante em que faço esta escolha. Não podemos perder o foco eterno da existência – perigo constante do mundo de Hunter – e nem substituir a experiência religiosa pela funcional. Tampouco conseguiremos saciar nossa sede existencial de transcender e encontrar Deus, apenas no trabalho ou na boa conduta moral, porque no quesito “Eternidade”, os valores éticos, ainda que cristãos, são insuficientes para uma experiência transcendente. Falta o essencial: A amizade com Deus. Precisamos nascer de novo. Precisamos de um encontro pessoal com Ele. Precisamos receber o seu amor doado através da cruz. É a partir disso que toda a construção espiritual se faz. 

O grande perigo do mundo de Hunter é dar a falsa impressão de que nossa alma encontrou sentido de existência, ainda que não tenha encontrado Deus. 

Curiosamente o grande perigo no mundo da igreja é exatamente o mesmo. A falsa impressão de que encontrou a Deus porque encontrou o caminho do ritual e do dogma. Ambos, quer monges quer executivos precisam de Deus.

O mundo aspira por um cristianismo mais engajado com Deus e com o próximo. Menos dogmático e mais prático, mais inspirador, mais livre; por uma fé que contemple o todo e não apenas o que interessa aos propósitos do egoísmo. Talvez assim, executivos e monges se juntem compreendendo que a espiritualidade é toda a vida.

Domingos Sávio Rodrigues Alves.

Um dia um homem achou uma caixa de sapatos. Ficou maravilhado e fechou-se nela, presumindo que ali de dentro, contemplava o universo.

Esta é a minha história.

Aqueles que andam comigo, há pelo menos cinco anos, talvez estranhem a revelação. Eles me conheceram já anelando e trilhando por um caminho novo: o caminho do coração.

Mas por que me denomino um “quase ex”?

Faço isso porque de vez em quando me traio. O fundamentalismo é uma lógica com a qual enxergamos a vida, submetendo a Bíblia à fé de nossa denominação – e não o contrário. Por isso, vez em quando, a gente recai pela força do hábito e do paradigma.

Mas, com toda a certeza de minha alma, sou um quase ex-fundamentalista.

Estamos no início de um processo longo, o qual busca fazer a fé voltar àquilo que sempre foi: elemento de transformação e não de estagnação. Em muitos países, pessoas se levantam para protestar contra a atual fé acomodada e fatalista que o mundo evangélico vivencia. Há, no mundo inteiro, um clamor por uma relação mais inspiradora com Deus e com a vida. Mas, ainda que nossa geração não contemple o resultado completo deste processo, vale à pena plantar, no meio das pedras, para que a próxima geração tenha contato com uma vivência e prática do Evangelho, que seja mais próxima ao coração de Deus. Por agora, será somente semeadura. Ainda assim vale à pena. Não sei que tipo de resultado tudo isso trará, mas sei que semear é preciso. Foi o Henfil quem disse, e faço minhas as suas palavras:

“Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente.”

Eu sigo agora no “protestantismo de resistência”. Digo de resistência, porque não abro mão de ser protestante. Os ideais da reforma são nobres e belos. Sua prática é que se perdeu no tempo. Não abro mão dos fundamentos Bíblicos, apenas do fundamentalismo que despersonaliza o ser humano e faz com que a doutrina pareça ser maior que a Bíblia.

Assim, sigo com o legítimo desejo que tem norteado toda a minha vida eclesial: edificar meu povo para que sejamos mais parecidos com Jesus em caráter e em sua maneira de servir a Deus e de amar o próximo. Anelo por mostrar ao mundo que Jesus é a resposta de Deus para a crise humana. Desejo que meu rebanho tenha um contato direto com Deus e não com o dogmatismo religioso. Também desejo, mais do que nunca, amigos verdadeiros e sinceros e não religiosos que agem por conveniência.

Como me tornei um “Quase Ex”?
Explico a seguir.

Não imagino que minha vida seja realmente fascinante a ponto de justificar um texto. Mas meu caminho talvez tenha sido o seu. Então este texto confirmará o que você pensa. Ou, talvez meu caminho seja diferente do seu e, então, você poderá jogá-lo no lixo ou questionar algumas de minhas razões, e, possivelmente, isso leve você a questionar seu próprio caminho e algumas de suas razões. De qualquer forma, espero que lhe seja útil.

O meu, foi um caminho longo de percepções e conclusões. Mas o estopim queimou ao seu final, com os acontecimentos na Igreja Betesda do Ceará. Estes comprovaram tudo o que eu já desconfiava. Foram prova viva de que estávamos dentro de um padrão previsível – todo fundamentalista age igual. Olhando para alguns deles, vi a mim mesmo e me assustei.

Tornei-me um “Quase ex” porque descobri que o fundamentalismo tem uma lógica imutável.

É um padrão previsível. Esta lógica religiosa manifesta-se na pretensa defesa da sã doutrina. No fundo, o fundamentalista é alguém bem intencionado, mas falha por se achar o único capaz de entender a verdade. Por isso sua lógica lhe parece irretocável. Então, fecha-se dentro de sua caixa de sapatos e pensa contemplar o universo.

A lógica imutável do fundamentalismo é a dominação.

Ela nos leva a crer que a doutrina por nós abraçada, seja ela qual for, é o supra-sumo de todas as outras.

Sempre soube que os movimentos anteriores à reforma protestante foram belos, tais como o dos albigenses, petrobrussianos, dentre tantos outros aniquilados pelo catolicismo. Mas eu imaginava que sua beleza estava no fato de crerem, à imagem e semelhança de nossa doutrina evangélica, e não porque eram belos e legítimos em si mesmos. Cria, lá no fundo, ser esta semelhança que os legitimava como um mover do Espírito Santo. Portanto, minha leitura da história partia desta matriz, que fazia da teologia evangélica o supra-sumo de todas as outras. Assim, fechei-me e passei a chamar de má compreensão da Bíblia a tudo o que não refletia, de algum modo, a imagem e semelhança de nossa reta doutrina.

Através da lógica de dominação, imaginei que precisasse proteger a igreja de si mesma.

Nunca fui preso aos usos e costumes. Pelo menos, não ideologicamente. Sempre tive uma boa visão da liberdade e sempre me utilizei dela com responsabilidade. Sempre me vi como alvo da orientação de Deus. Sempre acreditei que o Espírito Santo me guiaria em toda a verdade e em conduzir minha vida com liberdade. Mas, estranhamente, sempre desconfiei desta mesma liberdade nas mãos dos outros. Apesar de saber, não conseguia aceitar que o mesmo Espírito que me apontava o amor e me conduzia para aquilo que é bom, também falasse ao coração de todos os que me cercavam. Por isso, zelosamente, tentei – e, confesso, ainda tento – proteger a igreja, de si mesma. Com isso ao invés de amadurecer meus irmãos, talvez eu os tenha infantilizado. Hoje, alguns têm dificuldade de compreender o novo e legítimo mover de Deus que está chegando e nos ajudando a enxergar a liberdade e a responsabilidade de existir, como agentes da história, como filhos amados de Deus e como voz profética a um mundo em ruínas.

A lógica de domínio me levou a concluir que não existe outra opção: Se não cresse da forma que me fora ensinado, estaria automaticamente abraçando o liberalismo teológico.

E pior, arrastaria minha igreja neste ritmo, de tal maneira que jamais conseguiria juntar seus pedaços. Temia que nos tornássemos como alguns grupos cristãos europeus: frios, materialistas e libertinos. Mas nem todo o cuidado adiantou, porque imos com nossos próprios olhos, o maravilhoso Evangelho de Jesus esfriar-se na laje do materialismo pós-protestantismo, naquilo que chamamos de neo-pentecostalismo.

Para meu alívio, entendi que deixar o fundamentalismo não é o mesmo que abrir mão da fundamentação Bíblica e muito menos abraçar a teologia liberal.

Descobri que o fundamentalismo é cego. Não conseguimos nos enxergar – apenas aos outros.

O motivo é a convicção de que nós possuímos toda a verdade. O maior erro desta escola é pensar coisas do tipo: “Fundamentalista é você. Eu sou apenas Bíblico”.

Cabe perfeitamente neste tipo de cristão, a frase de Bertrand Russel:

“Eu sou decidido, você é obstinado, mas ele é teimoso que nem uma mula.”

O fundamentalista tem o problema de não se ver como uma pessoa intransigente. Por exemplo: Quando eu ouvia notícias sobre o terrorismo islâmico, praticado por grupos fundamentalistas, ou quando assistia o noticiário contendo informações sobre o I.R.A. – o braço armado irlandês que praticava a versão cristã do terrorismo islâmico – eu pensava, inconscientemente: fundamentalistas são eles! Eu sou apenas bíblico. Não percebia, assim, que raciocinava com a mesma lógica que eu criticava: a doutrina que abraçara era o supra-sumo de todas as outras que compõem o mundo protestante. Eu não me via neles. Até porque minhas ações sempre foram todas do tipo “light”. Jamais discuti com alguém porque minha educação não permitia e, assim, jamais humilhei quem pensava diferente. Mas achava que essa pessoa estava sinceramente equivocado (a). O “outro” era sempre fundamentalista. “Eu”…, apenas bíblico. Assim tornei-me sectário, legalista e dogmático, apesar de nunca ter me enxergado assim. Em maior ou menor grau, dependendo de sua educação, todos agem assim. Mas não os provoque. Ainda que educados, eles foram treinados para reagir.

Ricardo Quadros Gouveia, em seu livro, “A Piedade pervertida” explica que o fundamentalismo baseia-se neste tripé de

Sectarismo – É o encapsulamento das igrejas, que se tornam alienadas, alheias à cultura do país e aos problemas sócio-econômicos. (Pág 40)

Legalismo – É o estabelecimento de uma nova lei que se impõe e, conseqüentemente, anula a graça de Deus em Jesus Cristo. (Pág 43)

Dogmatismo – É a absolutização dos dogmas, o estabelecimento do sistema de doutrinas, não apenas como inquestionável, mas acima da Palavra de Deus. (Pág 47)

É exatamente assim que vive um fundamentalista, seja ele moderado ou radical, fechado em seu próprio padrão de referência. É um mundo à parte, do qual é difícil de sair, porque sempre enxerga o outro e nunca a si mesmo.

Como encontrei a porta de saída.

Três movimentos aconteceram em minha alma até enxergar a porta de saída:
A reflexão, a compreensão e a decepção.

A reflexão

Estávamos em um encontro de pastores de nossa igreja, em uma das serras do Ceará. Ricardo Gondim explanou sobre algumas posturas em relação à liberdade. Eu, respeitosamente, confrontei-o. E sua resposta foi imediata. Não sei de onde saía tanto argumento. Tudo bem! Estávamos apenas no mundo das idéias.

Depois do almoço, sentamos à mesma mesa. Fomos conversar e refazer o caminho de ligação, interrompido pelo confronto. Ao final da conversa, ele saiu com essa:

– “Vocês (eu e minha esposa) são muito fundamentalistas. Não é culpa de vocês. Foi a formação teológica que tiveram…. A teologia sistemática é fruto de uma visão de mundo profundamente fundamentalista.”

Pronto. Nunca mais esquecemos aquilo, porque como todo bom fundamentalista, dissemos: Eeeeu? “Eu sou apenas bíblico. O outro é que é fundamentalista”. Assim, não conseguia aceitar a idéia. Todavia, buscamos compreender por que ele tinha aquela visão de nós. Ficamos refletindo sobre isso, até que veio…

…A compreensão

Era uma bela e fria manhã. (para nós, nordestinos, toda manhã nublada é bela). Estávamos em Águas de Lindóia – SP, no Congresso de Reflexão e Espiritualidade, quando o mesmo Gondim veio com um papo inquietante:

– “A igreja Evangélica é apenas um movimento teológico, e como os tantos outros que surgiram antes dele, está dando os seus últimos suspiros(…) Todos os movimentos teológicos antes dela experimentaram começo, meio e fim. (…) O Evangelicalismo é um barco que está fazendo água.”

Ele não só disse como também provou que isso é possível, através do livro de Malaquias e de fatos incontestáveis de nossa história protestante. Aquilo me pareceu intrigante e, ao mesmo tempo, fascinante. Estava diante de uma nova fronteira, que eu já percebia, mas para a qual nunca havia feito um fechamento de raciocínio. Ora, não é necessário sequer usar a imaginação para concordar que este movimento está sendo diluído dentro do chamado neo-pentecostalismo. É como um resto de tinta fresca no copo de vidro. À medida em este é cheio pela água corrente da torneira, observa-se a cor se diluindo, até perder sua consistência e ser vencida pela água. Assim morre o evangelicalismo nos braços do neo-pentecostalismo.

Aquele congresso de Reflexão, como todos os outros que fomos, fez toda a diferença em nossas vidas. Diria que foi uma semana de socos no estômago. Mas, estranhamente, quanto mais apanhava, mais forte eu ficava. Mais convicto me tornava. Estava finalmente aberta a porta de saída para mim. Ao findar o congresso havia compreendido algumas coisas importantes:

Compreendi que o “Evangelicalismo” não é sinônimo de “Igreja de Jesus”, mas um movimento teológico como tantos outros que deram cor ao protestantismo.

Sempre acreditei que o pensamento humano está em constante mutação, mas fui reducionista e excluí a teologia deste quadro. Dogmatizei a teologia. Quando entendi a história do protestantismo e seus muitos movimentos teológicos, compreendi que a Igreja Evangélica é apenas uma minúscula parte de um destes movimentos dentro do protestantismo.

Hoje, entendo que tal como nas outras disciplinas da ciência, um movimento (teológico ou não) sempre vem em resposta à insatisfação com um modelo anterior que caducou, e que não mais responde às perguntas de sua época. Esta é, portanto a síntese da crise que hoje o evangelicalismo vive.

Compreendi que a identidade teológica e cultural transcende a identidade denominacional.
Muitos batistas, metodistas, presbiterianos e assembleanos incorporaram em sua prática, ao longo do século XX, elementos neo-pentecostais, calvinistas, pietistas, etc. São confessionalmente de uma denominação, mas sem perceber fazem parte deste outro fenômeno teológico e cultural. Assim, as igrejas vão se fragmentando e assumindo novas identidades, dentro de uma mesma denominação. Portanto, temos pentecostais puritanos e presbiterianos “do fogo”, que vivem à cata de montes de oração. O que lemos? O modelo “evangelical” caducou e, por isso, as pessoas buscam outras respostas. Estamos no limiar de uma mudança.

Rubem Alves observa este fenômeno no livro “Religião e Repressão”. Ao analisar o movimento protestante, elegeu como tipo, não as denominações que a história rotulou, mas os movimentos que existem dentro delas e os classificou em três modelos: O “Protestantismo da reta Doutrina” – que é mais dogmático. O “Protestantismo do Sacramento” – que é mais litúrgico. E o “Protestantismo do espírito” – que é o mais místico de todos. Ele diz:

“Os tipos transcendem as denominações, pois podemos encontrar expressões suas em denominações, igrejas e seitas distintas. (…) numa mesma denominação podemos encontrar a presença de mais de um tipo. E é exatamente a presença de tipos divergentes dentro de uma mesma organização que explica o aparecimento de conflitos em seu interior.”

Portanto, um movimento teológico, seja formal ou pragmático, é o que enche o coração de uma igreja, sem necessariamente mudar sua orientação doutrinária. Mudam apenas (apenas?) seus conceitos e expectativas da fé e da existência; suas respostas ao mundo que o cerca.

Compreendi finalmente que toda e qualquer teologia é ciência e não passa disso.

Sempre entendi que a ciência da teologia se vale de diversas ferramentas, tais como a lógica, a filosofia, a hermenêutica, a exegese, a metodologia científica, etc. Por ser ciência, toda teologia é em si mesma “questionável”, porque é a elaboração de homens, que tentam definir a indecifrável pessoa de Deus. O problema é que eu colocava a teologia que havia abraçado, na classe de uma genuína revelação de Deus. Não era ciência. Era revelação. Com isso, sem saber eu traí um dos mais belos corolários da reforma protestante, a saber, a constante reformulação: “igreja reformada, sempre reformando.”

Disso concluí o seguinte:

• Nenhuma teologia é final ou está completa.
• Nenhuma teologia contém toda a verdade de Deus.
• Nenhuma teologia está isenta de contradições.
• Concluí que a verdade é autônoma. Não a possuímos. Ela é que nos possui. A verdade não é um conceito. É uma pessoa – Jesus.  Aprendi, finalmente, que Deus é infinitamente maior que qualquer teologia. Ele não cabe em caixas.

A decepção

Finalmente, o derradeiro desdobramento que marcou minha situação de “Quase Ex”, foi a decepção. Ela deu concretude e historicidade a todas as minhas percepções. Ironicamente, foi a “prova científica” que minha tese precisava para ganhar o status de verdade. Novamente menciono Rubem Alves:

“Como Kuhn indicou, uma teoria não é aceita, de início, senão após passar no teste cartesiano e de haver demonstrado que se assenta sobre bases que estão além de toda a dúvida. “

Este foi meu dolorido processo. Minhas desconfianças tornaram-se verdade, apenas depois de eu as ter visto com meus próprios olhos, no plano cartesiano, nas ações de pessoas queridas. Vi colegas com os quais eu andei, por mais de 16 anos, nomearem de “guerra santa” a sua indisposição de amar e caminhar com seu líder. Vi, horrorizado, ovelhas que um dia receberam de bom grado as minhas palavras, me recepcionarem com faixas e cartazes, sendo usadas como rebanho de manobra, gritando contra uma imagem que lhes foi maldosamente passada.

Eles não compreendiam as reais razões da tal “guerra santa”, mas, mesmo assim, combatiam. De minha tristeza surgiu a certeza: O fundamentalismo é o ar onde o fogo do obscurantismo queima. Foi a confirmação de que o fundamentalista age por um padrão previsível. Neles, enxerguei a mim mesmo e consegui visualizar melhor o meu caminho de mudança. Assim, sou um “Quase Ex Fundamentalista”, porque compreendi que o fundamentalismo matou o espírito da reforma protestante.

Por isso minha alma anela pelo novo. Pelo frescor do Evangelho, pela doce influência de Jesus em minha vida e ações. Estou de volta aos ideais da Reforma, sempre reformando.

Hoje, meu coração traz uma profunda gratidão e uma, já há muito consolidada, admiração por um amigo especial: Ricardo Gondim.

– Amigo, você me mostrou a porta de saída do fundamentalismo. O ferro
afiou o ferro. O amor triunfou entre nós.

Junto dele, outros tantos especiais, por quem tenho imensa gratidão e igual admiração. São pensadores livres e inspiradores: Ed René (que está involuntariamente muito próximo de mim através, de suas idéias), Elienai Jr (que me tem indicado livros preciosos e com quem tenho maravilhosos papos) e Gedeom Freire (Um exemplo de que a fé genuína e os vínculos pastorais firmes podem conviver com uma mente científica brilhante).

– Vocês foram também mentores, mesmo sem saber, de uma revolução que ainda não aconteceu nas ruas, mas já é fato na minha alma.

Hoje, eu não mais me imagino um fundamentalista, apesar de estar consciente de que sendo uma lógica e uma visão de mundo, não é algo do que podemos nos livrar instantaneamente, como quem troca de roupa. Mas uma coisa é certa: com todas as minhas forças, estou buscando compreender a vida fora de todas as caixas teológicas que os homens gentilmente construíram.

Eu saí de minha caixa. O universo me parece maior e mais belo que jamais imaginei.

Domingos Rodrigues Alves.